Sergio Augusto Medeiros (n. 1993) é artista visual cuja prática se concentra no conhecimento tecnológico do tipo científico. Doutor em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, mestre em Artes pela mesma instituição e graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Maringá. Suas pesquisas foram desenvolvidas em laboratórios, acervos, bibliotecas e coleções especiais de instituições científicas. Projetos de sua autoria, selecionados e premiados, foram apresentados em exposições individuais e coletivas em instituições culturais nacionais e internacionais, com participações em bienais, festivais e ocupações artísticas. Vive e trabalha em Belo Horizonte, Brasil.
A apropriação de modelos de visualização utilizados na quantificação, descrição e classificação estrutura uma prática articulada a procedimentos de busca, análise e síntese voltados ao rastreamento histórico de conceitos, métodos e teorias provenientes de diferentes campos do conhecimento. Os projetos demandam formulações metodológicas de caráter experimental, bibliográfico, exploratório e ficcional, recorrendo a materiais referenciais. Seus desdobramentos assumem a forma de ilustrações, fotografias, programas computacionais, vídeos, instalações e publicações, enquanto determinadas etapas são compartilhadas em congressos, seminários e colóquios.

Fundamentado em uma compilação referencial dedicada à transformação da letra, este projeto investiga a tipografia como sistema de caracteres históricos, examinando sua função na experiência da leitura através dos séculos, com enfoque na morfologia das letras e nos processos de padronização tipográfica que reconfiguraram os modos de circulação de materiais científicos impressos. A partir da análise de incunábulos, tratados técnicos, manuais especializados, jornais e periódicos, os materiais são sistematizados em publicações impressas concebidas como instrumentos de apoio à investigação.
Esta pesquisa foi desenvolvida a partir dos acervos da Biblioteca Herzog August, em Wolfenbüttel, Alemanha, e do Arquivo Público Mineiro (APM), em Minas Gerais. Parte dos resultados dessa investigação foi divulgada em publicações acadêmicas, entre elas os textos Letras Angulares da Minúscula Gótica e Organização de Tipos Móveis em Caixa, ambos presentes na coletânea Estudos Críticos em Artes e História, da Editora E-Publicar, além de Tipografia Científica, publicado na coletânea Ensaios sobre Linguística, Letras e Artes, da Editora Bagai. Uma fotocópia do trabalho integrou a exposição coletiva Território Impresso como parte do 15º Ciclo de Investigações, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).


No início do projeto, a investigação concentrou-se na trajetória da letra gótica, desde as práticas caligráficas medievais até sua incorporação à tipografia. O estudo analisou de que modo transformações socioculturais influenciaram o desenvolvimento dessa forma de escrita, considerando seus usos em distintos contextos históricos e sua ressignificação em movimentos políticos e musicais. Em seguida, a pesquisa abordou a origem das expressões “caixa alta” e “caixa baixa”, empregadas para designar letras maiúsculas e minúsculas. Por meio de uma análise histórico-técnica, examinou-se a organização dos tipos móveis em compartimentos de madeira. Como desdobramento do projeto, a investigação voltou-se às diretrizes editoriais que estabelecem parâmetros de formatação textual acadêmica, com ênfase na usabilidade das tipografias Times New Roman e Arial. Para tanto, optou-se pela submissão de um capítulo a uma editora cuja política editorial exigia explicitamente o uso dessas fontes, transformando a própria prática de adequação formal em parte integrante da investigação.
.jpg)


Em uma das etapas do projeto, procedeu-se à incorporação de matrizes linguísticas e visuais oriundas de Nature, Science, The Lancet e Advanced Materials, reconhecidas como publicações de ampla circulação e consolidação histórica em distintos campos do conhecimento. A partir da observação de seus títulos, adotou-se como procedimento a derivação lexical sistemática de termos associados a cada uma dessas raízes. No caso de “Nature”, foram mobilizadas formações sufixais, prefixais e parasintéticas, como “natural”, “sobrenatural”, “nativo”, “naturalizado” e “natureza”. Em relação a “Science”, foram exploradas derivações como “científico”, “cientista”, “consciência”, “presciente” e “ciência”. A designação “Lancet”, historicamente vinculada ao instrumento cirúrgico, orientou a seleção de termos associados a incisões, cortes e operações, como “incisão”, “lancetar”, “dissecar” e “seccionar”. Já “Advanced Materials” direcionou a incorporação de vocábulos relacionados à materialidade e à engenharia, como “material”, “imaterial”, “compósito”, “sintético” e “estrutura”. Paralelamente ao eixo linguístico, desenvolveu-se a apropriação das tipografias historicamente associadas a esses periódicos, compreendidas enquanto signos gráficos portadores de autoridade e legitimidade no campo científico. As palavras derivadas foram reorganizadas em composições visuais que tensionaram seus regimes de significação originais. Como desdobramento material, essas composições foram reimpressas no formato de revistas, operando uma transposição crítica que articulou linguagem verbal e visual, ao mesmo tempo em que simulou e deslocou convenções editoriais consolidadas.

Caractere Tipográfico Específico
Tipografia Científica
Montagem composta por publicações impressas em jato de tinta sobre papel offset (29 × 42 cm cada), reunindo páginas de estudo sobre tipografia e composição editorial, bem como provas tipográficas de artigo científico e espécimes com alfabetos extraídos da publicação técnica Specimen Book of “Monotype” Printing Types, Volume 2, Monotype Corporation, 1998. Inclui também material proveniente de Die so nöthig als nützliche, de Christian Friedrich Gessner (Leipzig: Geßner, 1740). Dimensões variáveis.
2020–2024